segunda-feira, 19 de junho de 2017

Preparando a Prova

Espero que todos tenham tido um bom feriado.

Lembro a todos que teremos nossa prova na próxima quinta feira.
Conforme o Plano de Ensino, a prova vale 10 pontos e é descrita como uma 
Avaliação individual escrita, na qual serão avaliados os seguintes pontos:
capacidade de articular idéias;
compreensão do conteúdo desenvolvido;
capacidade de refletir sobre a vivência corporal e relacioná-la ao conteúdo estudado.

O conteúdo que estamos estudando é o texto de Richard Shusterman "O corpo silencioso e manco da filosofia" do livro chamado "Consciência Corporal" e o livro de Rosane Preciosa denominado "Rumores Discretos da Subjetividade".

A prova consiste na primeira etapa de redação do texto final que é um "Ensaio que apresente a experiência prática e uma reflexão embasada em leituras". Além dos textos acima citados as anotações de aula são material importante para a escritura deste trabalho. 
As aulas estão focando a experiência somática como meio de criação de uma dança pessoal e também como uma possibilidade de revisitar as danças praticadas por cada um. 

Sinteticamente, o conteúdo básico para todos é este.
O mais importante esta semana é cada um definir como e o que vai escrever em seu ensaio. 
Existe um ponto específico da experiência que é importante pra você?
Existe algum processo de criação ou de percepção de si que você tem vontade de estudar?
Os textos te provocam inquietações que você quer experimentar em sua dança?

Estas são algumas perguntas que podem nortear seu trabalho.
Preparem-se. Tragam uma proposta do texto já escrita para a prova.
Será entregue junto com o texto que será redigido presencialmente.

A proposta do texto pode ser algum trecho já iniciado.
Pode ser alguns fragmentos significativos que você está querendo reunir.
Pode ser um estudo dos textos lidos no qual você está procurando relacionar com as práticas.
Pode ser a formulação de uma questão e a tentativa de explicá-la, mesmo sabendo que o estudo poderá alterá-la.

Não venha de mãos e de mente vazias.
Nos vemos na quinta às 9h no Laboratório de Ações Corporais.

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SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
ANEXO DA RESOLUÇÃO No 30/2011, DO CONSELHO DE GRADUAÇÃO
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INSTITUTO DE ARTES
COLEGIADO DO CURSO DE TEATRO

PLANO DE ENSINO
1. IDENTIFICAÇÃO

COMPONENTE CURRICULAR: EDUCAÇÃO SOMÁTICA  II
UNIDADE OFERTANTE: Instituto de Artes - Curso de Dança
CÓDIGO: IARTE - 44031
PERÍODO/SÉRIE: 3º período
TURMA: Y
CARGA HORÁRIA
NATUREZA
TEÓRICA: 15h

PRÁTICA: 15h

TOTAL: 30h
OBRIGATÓRIA: ( X )
OPTATIVA: (  )
PROFESSORA: Renata Bittencourt Meira
ANO/SEMESTRE: 2017 I
OBSERVAÇÕES:

2. EMENTA
O corpo como experiência e a poética do espaço. Organização corporal e fluxo de movimento.

3. JUSTIFICATIVA
O conteúdo central deste componente curricular é o conhecimento somático engendrado no trabalho técnico e criativo em dança. Para isto, a disciplina reconhece, valoriza e trabalha com as práticas e referências de dança dos estudantes aportadas no contexto cultural  local e regional. Este material técnico e estético traz para sala de aula as danças urbanas, referências de danças tradicionais, o trabalho desenvolvido nas academias de dança da cidade e danças que são oferecidas comercialmente para a comunidade. Por outro lado, a disciplina se propõe a desenvolver o conhecimento somaestético na perspectiva da experiência, da reflexão intelectual e em processos de criação. A abordagem visa traçar pontes para unificação destes dois campos do conhecimento em dança, um trazido da comunidade pelos estudantes e outro proposto pelo curso como conhecimento específico e acadêmico experimental nas artes do corpo. Esta proposta pretende contribuir com a consolidação de um conhecimento sólido e significativo que contribua para a competência esperada do egresso do curso de atuação em pesquisa, criação e produção artística (PPP, p. 18).
Colocando-se no conjunto das disciplinas ofertadas, os estudos em Educação Somática II incluem leituras e escritas que transitam entre a experiência vivenciada e o conhecimento adquirido. Com isto, colabora na execução dos objetivos do curso, em especial, a criação cênica, a dinamização das manifestações cênicas da região, a formação técnica-reflexiva do bailarino e a perspectiva “interdisciplinar e específica do intérprete, por meio de uma equilibrada relação entre fundamentação teórica e experiência prática, que considere o caráter híbrido da criação implícito ao próprio campo de formação” (PPP, p. 19).
Dentro do Projeto Semestral do Curso de Dança, a disciplina Educação Somática II se articula com as ideias de inventário e dramaturgia. Nesta disciplina o Inventário é um instrumento de averiguação de mudanças e também uma forma de revisitar as experiências em dança. Utilizado pela Eutonia, é uma forma de percepção somática auto consciente (SHUSTERMAN, 2012, p. 100 e 101) e orientada que permite a comparação do estado corporal em momentos distintos da vivência. Assim é feito um balanço de como cada um sente seu corpo antes e depois de práticas de sensibilização e de criação. Ainda dentro da noção de Inventário, a disciplina Educação Somática II, tem dentre seus objetivos o estudo somático do repertório dançado de cada estudante, ou seja, a experiência anterior e as propostas criativas em dança serão revisitadas por meio da reflexão somaestética como meio para estudar os diferentes níveis de consciência  (SHUSTERMAN, 2012, p. 98 a 101) que a abordagem somática envolve. A dramaturgia se apresenta nas atividades de experiências criativas como ligação entre a percepção de si, da prática em educação somática e as práticas de composição. Os estudos somáticos passam, portanto, pela criação de movimentos tendo como base a percepção de si, do espaço e dos outros.
4. OBJETIVO
Objetivo Geral:
Conhecer o movimento na perspectiva somática de modo a criar caminhos próprios de criação em dança e de renovação e ressignificação de danças engendradas culturalmente.

Objetivos Específicos:
Conhecer as posições de equilíbrio, os jogos de agonistas-antagonistas, as posturas e as diversas atitudes corporais em relação ao espaço.
Buscar um maior grau de liberdade estrutural, expressiva e funcional dos movimentos.
Sensibilizar a pele como órgão de sentido envolvido no movimento.
Relacionar o potencial perceptivo com a dinâmica do movimento.

5. PROGRAMA
As unidades apresentadas organizam os conteúdos mobilizados na disciplina, entretanto, não indicam uma ordem cronológica nem uma hierarquia de conhecimentos. O modo de desenvolvimento deste conteúdos será estabelecido na dinâmica de grupo dos participantes da disciplina (estudantes e docente)
Unidade I _ Práticas de percepção corporal, improvisações orientadas, leituras e debates que levem a cada um a conhecer e desenvolver condições e estratégias para a pesquisa de movimento no cruzamento entre percepção de si e reconhecimento de práticas em dança. Exploração de práticas para desenvolver o trânsito entre a observação e a reflexão somaestéticas (Shusterman, 2012, p. 100)
Unidade II _ Processos de criação em dança individuais e coletivos para aprofundamento da investigação do movimento a partir da percepção corporal e do re-conhecimento das danças aportadas no contexto cultural trazidas por cada um dos estudantes.
Unidade III _ Processos de criação de textos como estratégia para vincular a experiência corporal e o conhecimento acadêmico, bem como para fortalecer e estabilizar os conhecimentos acionados na disciplina.
  
6. METODOLOGIA
A disciplina será organizada com as seguintes atividades:
  • improvisações a partir de elementos de educação somática;
  • atividades práticas de criação de movimentos;
  • leituras e elaboração de textos escritos;
  • debates e rodas de conversa;
  • contato com especialista em técnica de Feldenkrais;
  • atividade de pintura corporal conjunta com outras disciplinas do curso de dança e com os estudantes de Artes Visuais proposta pelo Prof. Gastão Frota.
 7. AVALIAÇÃO
20 pontos
Interesse e participação e do aluno nas atividades propostas serão avaliados levando em consideração:
a pontualidade na entrega dos trabalhos;
freqüência nas aulas
           profundidade e seriedade no desenvolvimento dos trabalhos em sala de aula.
10 pontos
Participação nos debates teóricos, nos quais serão avaliados os seguintes aspectos:
leitura e compreensão dos textos indicados;
capacidade de expressão verbal;
capacidade de relacionar prática e teoria;
criatividade na articulação das idéias.
20 pontos
Elaboração de Ensaio que apresente a experiência prática e uma reflexão embasada em leituras, considerando:
Conteúdo;
Dedicação;
Apresentação;
Pontualidade na entrega.
10 pontos
Avaliação individual escrita, na qual serão avaliados os seguintes pontos:
capacidade de articular idéias;
compreensão do conteúdo desenvolvido;
capacidade de refletir sobre a vivência corporal e relacioná-la ao conteúdo estudado.
20 pontos
Auto-avaliação levando em conta:
interesse, empenho, capacidades adquiridas, entendimento e desenvolvimento de consciência e expressão corporal.
20 pontos
Avaliação coletiva realizada com todos os estudantes.

8. BIBLIOGRAFIA
Básica

GIL, José. Movimento Total: o corpo e a dança. Lisboa, Portugal: Relógio D’Água Editores, 2001.
PRECIOSA SEQUEIRA, Rosane. Rumores Discretos da Subjetividade. Porto Alegre: Sulina & UFRGS, 2010.
SHUSTERMAN, Richard. Consciência Corporal. Tradução de Pedro Sette-Câmara. Rio de Janeiro: E Realizações, 2012.

 Complementar

ALEXANDER, Gerda. Eutonia: um caminho para a percepção corporal. S.P., Martins Fontes, 1983.
AZEVEDO, Sônia Machado de. O papel do corpo no corpo do ator. São Paulo: Perspectiva, 2002.
BOLSANELLO, Debora. Em Pleno Corpo: Educação Somática, Movimento e Saúde. 2a ed. Curitiba: Juruá, 2010.
CALAIS-GERMAIN, Blandine; LAMOTTE, Andree. Anatomia para o movimento: volume 2: introdução à análise das técnicas corporais. São Paulo: Manole, 2010.
CALAZANS, Julieta, CASTILHO, Jacyan e GOMES, Simone (orgs). Dança e Educação em Movimento. São Paulo: Cortez, 2008.
FELDENKRAIS, Mosche. Consciência pelo movimento. São Paulo: Summus Editorial, 1977.FORTIN, Sylvie. Educação Somática: Novo ingrediente da formação prática em dança. In: Cadernos do GIPE-CIT, 2, 1999, 40-55. Tradução de Márcia Strazzacappa.
MEIRA, Renata Bittencourt. Conceituar a experiência: expressividade de corpos sensíveis. In: Memória Abrace Digital. GT Processos de Criação e Expressão Cênicas – Anais do VI Congresso Nacional da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós Graduação em Artes Cênicas – ABRACE – 2010. Disponível em http://portalabrace.org/vicongresso/processos/Renata%20Bittencourt%20Meira.pdf  
MEIRA, Renata B. Expressões e Impressões do Corpo em Cena. In: Teatro ensino, teoria e prática / Paulo Merísio e Vilma Campos organizadores. Uberlândia: EDUFU, 2011.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Texto Final - Victor Marcitelli

UFU – Universidade Federal de Uberlândia
Consciência Corporal I
O SILÊNCIO ANTES DA PALAVRA
Victor Marcitelli

 INTRODUÇÃO


            Durante a disciplina encontrei semelhanças entre os textos passados e o que estava estudando paralelamente no grupo de pesquisa em máscara, coordenado pela professora Vilma Campos.
  Godard e Lecoq estudam a análise do movimento e do gesto, são dois pontos de vistas diferentes, um aprofunda na dança outro no teatro, embora usem termos diferentes vejo que os dois autores se complementam em suas definições, com olhares diferentes os dois tem objetivos em comum, tocar o público, investem em uma arte que acesse e transforme as pessoas, trabalham com um “olhar refinado” onde cada movimento é preenchido, com tônus e emoção. Do ponto de vista pedagógico senti que o processo de educação somática complementa e auxilia o trabalho com máscaras, principalmente com a máscara neutra, também relacionei as ideias da Bolsanello com a pedagogia do Lecoq.


EDUCAÇÃO SOMÁTICA E MÁSCARA NEUTRA

Bolsanello escreve as características recorrentes no método de Educação Somática, elegi algumas para relacionar com outros textos:




“1. A diminuição do ritmo: O professor propõe que o aluno faça os movimentos de forma mais lenta do que habitualmente ele faz a fim que possa perceber as estruturas músculo-esqueléticas implicadas quando executa o movimento”. É o primeiro passo de uma tomada de consciência de como se executar um movimento de maneira justa.
2. A respiração como suporte do movimento:  O professor não dita um ritmo respiratório para a execução do movimento, mas pede ao aluno que use seu próprio ritmo respiratório como suporte do movimento. (...)

4. A auto-pesquisa do movimento: As comandas não dirigem o aluno à mera execução de uma sequência de movimentos, nem a um aperfeiçoamento dessa seqüência. Trata-se de incitar o aluno a explorar, através do movimento, conexões entre partes do corpo aparentemente desconexas. (...)
6. A busca do esforço justo: O professor pede ao aluno que procure o tônus ótimo para realização do movimento proposto a fim de que o aluno comece a distinguir as variações de seu tônus e comece a integrar a capacidade a regular seu tônus de acordo com a situação e com o objetivo da tarefa a ser feita.” (2011: 308) “



A cerca da máscara neutra Lecoq explica:
“A máscara neutra é um objeto particular. É um rosto, dito neutro, em equilíbrio, que propõe a sensação física da calma. Esse objeto colocado no rosto deve servir para que se sinta o estado de neutralidade que precede a ação, um estado de receptividade ao que nos cerca, sem conflito interior. (...) Quando o aluno sentir esse estado neutro do início, seu corpo estará disponível, como uma página em branco, na qual poderá inscrever-se na “escrita” do drama.(...) A máscara neutra, está em estado de equilíbrio, de economia de movimentos. Movimenta-se na medida justa, na economia de gestos e de ações.”(2010: 69)

Jacques Lecoq e máscara neutra feita por Amleto Sartori.
            O “esforço justo” que Bolsanello cita é muito parecido com a “economia de movimento” do Lecoq, assim como a diminuição do ritmo e o suporte da respiração podem colaborar para encontrar o estado de calma da máscara neutra, por fim, a auto-pesquisa é o que dá base para o teatro físico.
 Outra coisa em comum entre esses processos é que ambos são métodos de base para o artista, tanto a educação somática quanto a máscara neutra são apresentados aos alunos no começo dos estudos, são de suma importância para tirar os alunos do cotidiano, somente saindo do campo cotidiano é que conseguimos transpor os movimentos, é aí que a poesia surge, que a pesquisa ganha força.
            Geralmente os atores que ingressam na escola do Lecoq vêm de outros países e já chegam com uma experiência em teatro, ele diz:
 “Temos de retirar um pouco daquilo que sabem, não para simplesmente eliminar o que sabem, mas para criar uma página em branco, disponível para receber os acontecimentos externos.” (2010: 57).

Está “página em branco” é onde quero chegar com a educação somática, um corpo em pesquisa, disponível para receber o jogo teatral.
“A máscara é a mais extraordinária experiência de liberação que se pode imaginar. (...) O despertar da consciência do próprio corpo é imediato e inevitável.”
Peter Brook


FUNDO POÉTICO

Godard conceitua o pré-movimento, que somente o acesso ao imaginário permite tocar, isto é: “essa atitude em relação ao peso, à gravidade, que existe antes mesmo de se iniciar o movimento, pelo simples fato de estarmos em pé. Esse pré-movimento vai produzir a carga expressiva do movimento que iremos executar (...). É ele que determina o estado de tensão do corpo e que define a qualidade e a cor específica de cada gesto. O pré-movimento age sobre a organização gravitacional, isto é, sobre a forma como o sujeito organiza sua postura para ficar em pé e responder à lei da gravidade, nessa posição [...]. São ainda esses músculos que registram as mudanças em nossos estados afetivo e emocional. Assim toda modificação de nossa postura terá uma incidência em nosso estado emocional e, reciprocamente, toda mudança afetiva provocará uma modificação, mesmo que imperceptível, em nossa postura” (2002: 14).

 Godard e Lecoq abordam o estudo do gesto, mas de pontos de vista diferentes, os dois tem o mesmo objetivo, mas chegam nele por vias distintas, Godard tem uma abordagem mais anatômica do corpo quando fala do pré-movimento, e Lecoq traz uma apropriação cultural, ele explica que o fundo poético comum trata-se de:
“Uma dimensão abstrata, feita de espaços, de luzes, de cores, de matérias, de sons, que se encontram em cada um de nós. Esses elementos estão depositados em nós, a partir de nossas diversas experiências, de nossas sensações, de tudo aquilo que vimos, escutamos, tocamos, apreciamos. Tudo isso fica em nosso corpo e constitui o fundo comum a partir do qual surgirão impulsos, desejos de criação”(2010: 82).

Eu me pergunto: qual será a relação do pré-movimento com o  fundo poético comum?


Sobre os dançarinos de Cunningham, Godard disserta:
“O dançarino sabe que deve desenhar a forma sem ruído, para não imprimir alteração nessa construção. Ele não está lá para se ser visto, mas para permitir o surgimento do signo procurado ou provocado pelo acaso. Podemos considerar a atitude postural e o pré- movimento, que antecipam inevitavelmente o gesto, como um plano de fundo sobre o qual se desenha o movimento aparente: a figura.(...) A ausência de modificação perceptível antecipando o movimento permite que vejamos não mais o indivíduo que dança, mas a figura que é desenhada. O distanciamento entre a emoção do dançarino e aquilo que ele produz ocorrerá, em seguida, no espectador: entre a figura observada e sua própria emoção” (2002: 27).
O termo emoção significa etimologicamente: “pôr em movimento”. O conceito do Plano de fundo que Godard traz é muito parecido com o fundo poético comum do Lecoq, uma atmosfera é instaurada e não vemos mais o ator em cena, vemos um corpo que conta uma história, e a emoção chega ao público, porque ele  se reconhece em cena, essa identificação faz com que deixemos de lado o ego do ator e a obra se abre para a plateia, é aí que o teatro acontece.

foto: Marvin Silver/Cunningham Dance Foundation
Godard ainda cita a pesquisa de Trisha Brown:
 “Trisha Brown esconde também os signos produzidos pela face, sendo o rosto um dos raros lugares do corpo onde se inscreve uma retórica imediatamente legível. Escondendo seu rosto, ela priva o público de signos de afeto, proíbe qualquer interpretação intempestiva de sua dança e impõe a visão do fundo. (...) Trisha Brown considera que o dançarino deve se deixar tocar por seu próprio gesto, tocando assim o espectador. Considera também que a presença do espectador e do meio podem influenciar e modificar a representação. A partir daí, dançarino e espectador embarcam na direção da terra incognita de espaços sensíveis a serem descobertos”(2002: 28).


Trisha Brown em seu solo If you couldn’t see me, de 1994. Integralmente dançado de costas.

Ao esconder o rosto em sua dança, Trisha Brown busca o mesmo que o Lecoq com a máscara neutra, uma representação que não se resuma a expressões faciais, um corpo que fala, a instauração de um espaço sensível, o silêncio antes da palavra.
Lecoq encerra o capítulo sobre o fundo poético da seguinte maneira:
 “Quando o ator levanta um braço, o público tem de receber um ritmo, um som, uma luz, uma cor. A dificuldade pedagógica é a de ter o olhar suficientemente treinado para discernir, entre diferentes gestos propostos, qual expõe o gesto explicativo, o formal, ou o poético justo. Pouco a pouco, os alunos chegam a ter um olhar sutil sobre as nuances dos gestos. Na realidade, o público deveria ter esse mesmo olhar... então descobriria riquezas desconhecidas.  Mas o comum é oferecer-lhe tamanha quantidade de banalidades, que isso se torna praticamente impossível. A formação do olhar é tão importante quanto a formação da criatividade. De nada serve oferecer um bom vinho àqueles que não podem apreciá-lo! É o que chamo de cultura: poder realmente apreciar as coisas.”
 Embora sua definição de cultura seja bem específica do lugar de onde ele nasceu, acho importante este estudo do olhar para o artista, principalmente do olhar interno que a educação somática propõe, são coisas para se pensar antes de entrar em cena e quando falamos de formação de ator e público.

“O meu pensamento modela os gestos assim como o polegar do escultor modela as formas: o corpo, esculpido do interior, distende-se e eu sou ao mesmo tempo escultor e estátua.”
Etienne Decroux



BIBLIOGRAFIA
BOLSANELLO, Débora Pereira. A Educação Somática e os conceitos de descondicionamento gestual, autenticidade somática e tecnologia interna. Motrivivência, ano XXIII, n. 36, p. 306-322, 2011.
GODART, Hubert. Gesto e percepção. In: Lições de Dança, 3. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2002.
PRECIOSA, Rosane Sequeira. Rumores discretos da subjetividade, Disponível em: http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/rumoresdiscretosdasubjetividadepreciosatese.pdf. Acesso em: 11 dez. 2015.
LECOQ, Jacques. O Corpo Poético Uma pedagogia da criação teatral. – são Paulo : Editora Senac São Paulo: edições SESC SP, 2010.
Museu Internacional da Máscara: a arte mágica de amleto e Donato Sartori / curadoria de Carmelo Alberti e Paola Piizzi; tradução de Maria de Lourdes Rabetti. – São Paulo: É Realizações, 2013.
Foto 1 Site do Ricardo Napoleão, Disponível em: <http://ricardonapoleao.com.br/index.php/o-jogo-das-mascaras-1-e-2/> Acesso em 15 dez. 2015-12-15
Foto 2 Site do The New York Times, Disponível em: < http://www.nytimes.com/slideshow/2009/07/27/arts/20090727_CUNNINGHAM_SLIDESHOW_7.html?_r=0> Acesso em 16 dez. 2015-12-15

Foto 3 informações sobre trisha brown, Disponível em: < http://www.walkerart.org/collections/publications/performativity/drawings-of-trisha-brown/> Acesso em 18 dez. 2015-12-15

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Trabalho Final - Alisson Leal


Consciência Corporal – Teatro UFU

Trabalho final do semestre de Consciência Corporal, aqui estarei relatando o meu processo, as minhas dificuldades, as minhas vitórias, o meu progresso durante esse período. Uma frase da Rosane Preciosa que resume sobre o assunto “Ao sabor das experimentações com que ela me acenava, me espantei ao me ver forçada a explorar estados inéditos de mim mesma (...)”.
Primeiro dia de aula, cheguei “armado”, retraído, em um lugar novo, lotados de pessoas estranhas em um curso que eu não tinha muita experiência na área (ainda não tenho) e principalmente em uma aula que envolve o corpo, o meu corpo, o corpo que eu não gosto, um corpo maltratado, sofrido, irregular em todos os sentidos, cheio de cicatrizes. Como posso fazer essa aula? Ninguém podia ver o meu corpo, não como ele é, tenho que o esconder atrás de tecidos, atrás da minha timidez, atrás da minha armadura, no canto da sala sem chamar atenção, escolhi não arriscar, escolhi a minha zona de conforto onde repetia (repetidamente) os mesmos movimentos, movimentos simples e sem criatividade.
“Temos aprendido a frear a perplexidade diante das coisas, despistar os estranhamentos. Evitamos qualquer situação que nos arranque desse lugar estável no mundo que acreditamos possuir. Sequer chegamos à beira de nossos abismos para dar uma simples espiadinha, para pesquisar o medo. Sufocamos nossa intuição, nossa zona de invenção, porque talvez seja arriscado demais lhe dar algum crédito, pode nos arremessar num beco sem saída, que nos force a abrir uma clareira em nós”. (Rosane Preciosa)
Aula de percepção e conhecimento do corpo. O seu andar, como que ele é? A sua coluna é alinhada? A sua cabeça chega primeiro que o seu corpo? E o seu quadril é alinhado com a coluna? Fiz essa avaliação sobre mim, sobre esse corpo imperfeito, falei o que era particular, me expus para aqueles olhares a minha volta, não tive coragem de ver as expressões dos rostos daquela multidão (sim, não era muitos, mas naquele momento parecia que todos os 7 bilhões de pessoas no mundo estava lá me olhando, me julgando), o que aqueles olhares queria dizer? Eu sei que tenho defeitos, a minha postura não era tão certa, mas conseguia colocar em eixo a cabeça com a coluna e o quadril (essa foi por pouco), afastei os holofotes de mim, não chamei atenção. Ótimo!
 Os exercícios chegaram ao longo desse processo, as bolinhas, os bastões, as bolas maiores, eles me ajudaram muito no meu desenvolvimento e no descondicionamento corporal, eu não dava importância para a minha postura quando sentava, sempre era a coluna “torta”, aprendi com os exercícios sentar corretamente nos ísquios com a coluna “reta”, a respiração foi um grande progresso, foi ela que me ajudou a finalizar os exercícios e diminuir as dores provocadas pela as mesmas. A cada aula sentia-me um novo Ser, com uma coluna nova, um corpo novo e aos poucos vir aquela timidez indo embora.
“Dele havia se apoderado uma luz diferente, singular, que funcionara como uma espécie de chamado. A intensidade do raio nele experimentada, abrira uma fissura em seu cotidiano, desarticulando seus padrões rotineiros. O raio anunciara uma forma de acesso mais rara à sua sensibilidade, tão atordoante quanto ameaçadora”. (Rosane Preciosa)
 Aula de enraizamento, sentir os pés no chão, sentir os ossos dos dedos dos pés, entender os apoios. Ai! Uma dor. Que dor é essa? Será que sempre esteve ali e eu nunca tinha percebido antes? Com as bolinhas massageando os pés pude aliviar essa dor.
“Encarnar conhecimento do próprio corpo”.
“Tal orientação somática caracteriza-se por uma abordagem que convida o intérprete criador à investigação consciente de sua interioridade, lugar no qual a subjetividade está encarnada na fisicalidade”. (Ana Terra)
Na segunda parte da aula, comandos vindos da mestra (que sabe o que faz) da profissional excelente (Renata Meira) que dita os comandos a ser executado com perfeição. Mas o que seria a perfeição? Ato sem erro? Isso é possível? Qual Ser Humano é perfeito? Essa perfeição seria até onde você consegue ir, onde é seu limite e até mesmo ultrapassá-lo. Não estou aqui para dizer que a Renata exigia a perfeição do sentindo literário da palavra, mas sim no sentindo de conhecer o seu corpo que habita e explora-lo.
Eu não consigo, não consigo a perfeição, vejo ao meu redor Seres fluindo, leves como uma pluma, fazendo movimentos a partir de comandos, ouço uma música. De onde vens? O que a música que dizer? Que ritmo é esse? E mil pensamentos ecoam na minha cabeça, a minha razão não deixava o meu corpo ir, para ser livre como os outros da sala, eu desejo isso, desejo fluir como águas dos rios, dos mares e das cachoeiras, deixar o vento me guiar a caminhos sem rumos que levam a lugares específicos, era um desejo incontrolável. Por que não posso? Qual a razão mesmo? Aaah sim, o meu corpo, esse corpo que não tinha esperança de dar frutos com movimentos graciosos. Mas como não? Ele só conhecia a dor! A dor de ser rasgado de fora para dentro, dentro para fora. Corpo conhecedor do abuso e dos toques indesejáveis, conhecedor da brutalidade dos Seres Humanos. Não, não dos Seres Humanos e sim dos monstros disfarçados de um Ser que tem alma, de um animal que pensa e age, mas por instinto esquece que a sua ação tem uma grande reação, animais nojentos que passa a suas mãos em um Ser puro e o contamina com seu mal. Não pode ser, eles conseguiram acabar com a minha inocência, de um mundo belo, com pessoas belas, em mim só restou as desconfianças e o medo. Cheguei a diminuir os meus passos, diminuir o meu ritmo, os meus movimentos, até chegar no zero. Voltei para o meu casulo, onde a minha timidez era a minha armadura. Não podia demonstrar o quão frágil que era, o quão frágil que sou.
“Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver”. (Gilles Deleuze, Nietzsche)
“A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova. Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira e sentires de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós as sentimos – há quanto tempo sabes tu isto sem os saberes? – E o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las. Muda de alma. Como? Descobre-o tu. (...)” (Fernando Pessoa)
Passei o resto da semana mal, não estava entendo por que me sentia como lixo, como o nada. Um vazio se abriu em mim, um buraco negro instalou-se nos meus sentimentos (sugador de esperança). Seu medíocre! Você é um fracassado, não tem coragem de se olhar no espelho pra si ver. Espelho que mostra imperfeições, que mostra o meu interior. Como é podre o que vejo, o que sou. Aquelas cicatrizes amostra do tamanho de um elefante. Por que espelho? Por que fazes isso comigo? Lugar de imperfeitos não é na frente do espelho, e sim, atrás dele. Quando estou na frente dele não consigo olhar por muito tempo por isso pego os meus panos e tecidos e me visto, encaro melhor, mas ainda não consigo continuar olhando por muito tempo, então pego a minha máscara e a coloco. Por fim saio da frente do espelho orgulhoso do que vejo, encaro tudo e todos acreditando que essa “perfeição” sou eu. Por baixo de tudo isso só tem os cacos de um Ser que um dia já foi humano, que respirava e vivia com os outros Seres. Agora só sobrou escuridão nesse Ser, que um dia nascestes na luz.
“Impetuoso experimento de inadequações. Aprende-se a cultivar relâmpagos em si, que deixam, desses encontros, marcas devastadoras.
Anunciam desterros e nascimentos. Transmitem uma arte: a de se viver chamuscado. ” (Rosane Preciosa)
“Preciso me controlar, conter essa perturbação toda, disfarçar minha vulnerabilidade. ” (Rosane Preciosa)       
            Mais um dia de aula. Sair de casa “armado” como sempre disposto a destruir qualquer um que entrasse no meu caminho. Tivemos um alongamento e aquecimento livre, cada um fazendo o seu e eu perdido como sempre. Como um ator não sabe se alongar e se aquecer? Vergonha da sociedade e do meio artístico. O que fazes tu aqui mesmo? O que querem aqui? Não basta conhecer o seu corpo, ainda o ignora? Não sabes que ele tem voz? Então, por que não a ouve?
Continuamos com o enraizamento dos pés, atento aos comandos ditos pela a orientadora Renata Meira (Desde a gênese do processo, ela que fazia as provocações que me levava a lugares desconhecidos do meu corpo e graças a ela aceito como sou, um ser imperfeito que faz gestos incomuns, que tem uma carreira bela pela frente e um futuro a ser descoberto), ela falava palavras que mexia com o meu imaginário, mas ainda não conseguia me soltar, a minha razão não aceita esses meus pensamentos.
            O que é isso? Música? Esse som que invadem os meus ouvidos é música? Sim, com certeza isso é música! De onde vens? Para onde vais? Que ritmo é esse que leva o meu corpo a imaginar formas, que chega a pensar em um breve momento em se libertar desses panos que o envolve, em tirar essa máscara que o sufoca cada vez mais, levando-o para o mais profundo abismo.
            “Desembaraçar-se de uma lógica enunciadora de verdades e fixação de identidades, que nos asseguram do que é certo, do juízo correto a fazer, da boa atitude a tomar. O conhecimento sufoca num cubículo desses para de funcionar se o que dele se requisita é apenas um esquemático jogo de interpretações venturosas, inequívocas, modelares. Afinal, nessa engrenagem, tudo existe para ser autopsiado, explicado. Isolam-se as partes imperfeitas, frágeis, paradoxais, desordenadas, ambíguas, tudo que de residual o pensamento arrasta. Vinga a lógica do pensar viver evitando complicações e estragos. ” (Rosane Preciosa)
            “E como é que se desprograma um circuito obsessivo? ” (Rosane Preciosa)
            Comandos foram introduzidos ao som da música e do ritmo frenético, pude ver os meus colegas em volta fazendo movimentos repetitivos e novos, criando uma sinfonia com o corpo e a mente. Travei com todo o peso que levava com a máscara e com os tecidos, e vir que aquilo não era para um Ser que já conheceu a morte de perto, onde abitava só escuridão. Respiração forte, o nervosismo estabeleceu, não quis me soltar, me sentir preso em corretes fortes e pesadas que me levaram para o chão.
            “Duas forças opostas geram um conflito, que gera movimento. Este, ao surgir, se sustenta, reflete e projeta sua intenção para o exterior no espaço. No corpo este fenômeno se inicia no momento em que descubro a importância do solo e a ele me entrego e respeito[...]. A medida que vou sentindo o solo, empurrando o chão, abro espaço para minhas projeções internas, individuais, que, à medida que se expandem, me obrigam a uma projeção para o exterior. ” (VIANNA, 1990:78) 
            A luz se foi em um milésimo de segundo, em um piscar de olhos, já não via muito bem, na escuridão via formatos de sombras e vultos ao meu redor em movimentos no chão, no ar, via eles voando, arrastando, viajando a um lugar inexistente que o seu corpo sentia e eu percebia a brisa passando no corpo deles, levando os seus cabelos, levando o seu Ser. Como se as paredes não existissem, como se a própria liberdade estivesse inclinada para o Ser que a implorava ajuda e a liberdade segurando as mãos dos seus e os levandos para um devir sem fim.
            No chão fiquei, conectei a ele e ele a mim, éramos um só. Mas o comando era claro como a luz do dia “O Chão é passageiro, ele só te dar o apoio”, então como barro nas mãos do oleiro comecei a ganhar forma. Um corpo, um Ser livre de novo, tentei sair do chão, mas o chão era como um imã que me atraia de volta para ele, ele tinha uma inimaginavelmente força que eu não conseguia lutar contra ele e acabava perdendo, voltando para aquele barro sem forma, sendo parte do chão e novamente ganhei outra forma. Um novo corpo, não um corpo humano, mas sim, de um corpo animal forte que possa pelo menos ter uma mínima chance para lutar contra essa força maior que era o chão, voltei a me desgrudar do chão. Primeiro o tronco do corpo do animal, o segundo a cabeça, o terceiro os braços e por último as pernas. Fui levantando até ficar de pé e tomei a forma desse animal, o seu estilo de viver, de caçar, de ser livre. Todos os panos que me escondia ficou perdido no chão junto com a máscara. Desse corpo voltei ao do Ser Humano, para minha forma e vir me no espelho, naquele maldito espelho que mostrava o que eu era, o que eu sou por dentro e por fora. Não aguentava mais aquele espelho e então fiz igual a rebelião do povo do espelho do texto da Preciosa, me libertei quebrando o mesmo. Senti a brisa na minha volta, a liberdade segurando as minhas mãos e fui, fui levado a zonas desconhecidas do meu corpo e da minha imaginação.
            “Inventar é movimentar-se no território radical do inesperado, que nos desarticula completamente. E a própria figura humana experimenta um inevitável colapso, isso porque aquela subjetividade foi desacomodada daquele lugar que costumava habitar. Liberaram-se potências desconhecidas que lhe exigem outras referências sígnicas, outra geografia de sentidos por onde transitar. O inventor é um cartógrafo de terras ignotas. ” (Rosane Preciosa)
            “Um corpo que não só trai, mas rouba, aspirador de ideias que estão por toda a parte. ” (Rosane Preciosa)
Eu já não era mais eu, fui levado além de tudo que já imaginei existir, um mundo novo, com um ar novo, não existia gravidade, a lei da física não existia nesse lugar. Você podia ser o que quisesse ser, o meu corpo involuntariamente começou a fazer movimentos antes mesmo de passar na minha razão, na verdade esse lugar onde a liberdade me levou não tinha lugar para a razão. Ideias em todas as partes sugiram e meu corpo trai, rouba essas ideias e com isso construía os mais belos movimentos, eu já não tinha mais controle sobre meu corpo rebelde, já não estava mais na minha zona de conforto.
A escuridão que habitava em mim, se misturaram com a escuridão do local e pude perceber que eu e esse corpo conhecedor do mal podia criar coisas tão belas, risos começaram a surgir. Mãos e pés eram apoios, hora com um apoio só outrora com dois ou mais apoios. “Além de trair e roubar, ele monta a coreografia de sua traição. Embarca numa excursão sem sujeito.” (Rosane Preciosa) Respirei fundo, experimentei esse novo ar, senti líquidos vazarem do meu corpo (suor), estava lá 100% eu, mas não estava só, pude perceber os olhares se voltando para mim, vir me no centro daquela sala, montando coreografia com o ritmo da música e disse para mim mesmo “chegou a sua vez, mostre o que sempre esteve dentro de você, traz ele à tona para fora desse seu corpo que não tem mais vergonha” e dancei com a liberdade, peguei a dama para o primeiro passo e ela me guiou. Cheguei na minha exaustão, mas não conseguia parar, eu não queria parar. O fim não existia. Mas e o limite do corpo? Já não existia mais limite, tudo era para sempre.
Encontrei com outro Ser que tinha um encontro marcado com a liberdade e dei uma amostra gratuita do que ela tinha ensinado. Os nossos corpos se encontraram e desencontraram, os nossos apoios era um só, nossos Seres se juntaram e montaram a mais bela coreografia, ela era como o chão que me atraia para criamos a nossa própria existência.
A árvore da vida é uma árvore que não tem tronco, não tem galhos, nem folhas e muito menos frutos, ela só tem caminhos a serem escolhidos e tomados. As marcas que deixam é pra lembrar que somos todos mortais, você vai sofrer, chegar no fundo do poço para reconhecer a felicidade quando ela chegar. Mas para isso você tem que dá o primeiro passo para a liberdade, quebre esse espelho que te impede de prosseguir, que não deixa encontrar o seu caminho nessa grande árvore que é a vida, diga não aos que te oprime, liga o seu foda-se para o mundo e se liberte, permita-se, seja livre, conheça o seu corpo, conheça o seu Ser, te conheça.

Sou mais feliz assim, sem espelhos, sem medos, me arriscando em caminhos desconhecidos, explorando o meu corpo, encontrando lugares novos. Descobrir o quanto que meu corpo é flexível, o quanto que ele é mutável. Faça a sua análise, lhe convindo a beber na taça da vida e aceitá-la o que ela lhe propor, só cabe a você transformar as suas experiências ruins em sua expressão corporal e jogar neste mundo a mais bela arte.  


Bibliografia
A educação somática e os conceitos de descondicionamento gestual, autenticidade somática e tecnologia interna, escrito por Débora Pereira Bolsanelo, Motrivivência, Ano XXIII, Nº 36, P. 306-322, Jun./2011.
  Rumores Discretos da Subjetividade, escrito por Rosane Preciosa, Editora Sulina, Ano 2010. Capítulos:
-No que você pensava enquanto escrevia o texto?
-Estimulações
-Devolvendo o corpo ao corpo
-Eu vou lhe contar um segredo
-Estilo, estilo meu...
-Um pequeno desvio
-Eu não sou criativo
-"O hábito anestesia"
-Alguém me responda por favor: quando é que uma experiência acaba?

 Klauss Vianna e a expressividade como devir dramatúrgico da dança, escrito por Ana Terra, Universidade Anhembi Morumbi, 2008.

  Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.